Será que faz sentido, atualmente, falar numa administração agressiva? (Constança Mendes)
Será que faz sentido,
atualmente, falar numa administração agressiva?
A ideia de administração
agressiva, como considerada pelos autores clássicos, surge nos primórdios do
Direito Administrativo, e subjaz à ideia de um juiz-administrador, ou, como
refere o Senhor Professor Vasco Pereira
da Silva, um juiz doméstico. Isto deriva do facto de que, nesta altura,
a Administração se julgava a si própria, numa ideia de separação de poderes que
advém da Revolução Francesa, muito distorcida de como a conhecemos hoje em dia.
Os particulares ficavam, naturalmente, desprotegidos e desvalorizados, o que
resultava do papel autoritário da Administração.
Porém, com a transição de
um Estado liberal para um Estado social, a administração passa a ser julgada
pelos tribunais, no entendimento correto da separação de poderes.
Na transição para um
Estado pós-social, começa a dar-se um maior valor à proteção dos indivíduos,
dos seus direitos, acentuando-se a realidade subjetiva, tanto através da constitucionalização
e de uma ação jurisprudencial, como também através do surgimento de um Direito
Europeu de Contencioso Administrativo.
Nos termos do exposto,
consideramos que falar em “administração agressiva”, uma vez que atualmente a
Administração funciona de acordo com o princípio da legalidade, isto é, a
subordinação à lei da atividade da mesma, atribuindo também cada vez mais
direitos aos particulares e afirmando-se como uma função prestadora de
serviços. Não obstante, sabemos que não é possível uma rutura abrupta com o
passado, pelo que o modelo da “administração agressiva” pode ainda fazer-se
presente, embora noutros termos e com menos impacto, na atualidade.
Constança
Mendes
Bibliografia:
DIOGO FREITAS DO AMARAL,
«Curso de Direito Administrativo», volume I, 4ª edição (Reimp.), Almedina,
Coimbra, 2018.
VASCO PEREIRA DA SILVA, «O
Contencioso Administrativo no Divã da Psicanálise. Ensaio sobre as Acções no
Novo Processo Administrativo», 2.ª. edição (Actualizada), Almedina, Coimbra,
2009.
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